A investigação objetiva analisar as disputas de sentido que se formam em torno do Movimento Black Rio, contrapondo o discurso de repressão do regime militar, registrado nos documentos de vigilância do Serviço Nacional de Informações (SNI); com as memórias de resistência, materializadas nos testemunhos dos frequentadores dos bailes Black Soul e Funk do Rio de Janeiro nas décadas de 1970 e 1980. Busca-se compreender como esses sentidos se estruturam e se tensionam na disputa pelo direito a cultura e a cidade (Vieira, 2026).
Na primeira etapa da pesquisa, foi realizada uma análise do discurso, pela ótica de Fairclough (2001, 2026), de cinco informes produzidos pelo SNI que associavam o Movimento Black Rio ao assim chamado racismo negro. Na segunda etapa, foram analisados os testemunhos do documentário 1976: Movimento Black Rio (TV da Rua, 2016) no contexto do debate sobre lutas políticas por memória de Elizabeth Jelin (2017).
O Black Rio nasceu entre as décadas de 1960 e 1970 como uma resposta da juventude negra das periferias e subúrbios do Rio de Janeiro à política de cisão da cidade e criou novas formas de vida e expressão cultural (Sebadelhe, 2017). Logo ele se tornou um dos movimentos culturais negros mais expressivos da região sudeste do Brasil, reunindo, em bailes, a “moçada” de diferentes partes do Rio e região metropolitana. O movimento conseguiu, além de revolucionar a cena cultural popular carioca, articular experiências entre trabalhadores e estudantes de diferentes regiões e integrar reivindicações de distintos setores da comunidade negra por meio da cultura (Gonzalez, 2022).
Essa mobilização causou um enorme descontentamento nos militares. Afinal, parte da articulação inicial do Movimento Negro começou com essa juventude que, ao assistir às lutas negras internacionais e ao ter esses encontros de vivências e experiências nos bailes, começou a se organizar politicamente. Por esse movimento ser a antítese de tudo que a base ideológica racista ditatorial defendia (Vieira, 2026), ele foi classificado como potencialmente subversivo e alinhado com os inimigos do regime militar (CEV-Rio, 2015).
É nesse contexto que entra em ação a repressão massiva ao Black Rio por parte da ditadura. Por meio da vigilância e da espionagem dos bailes pelos serviços de informação do regime, centralizados no SNI, foram produzidos os informes que alimentavam a estrutura repressiva e ditatorial, permitindo a execução sistemática das ações de perseguição ao movimento. Nesses documentos, o SNI faz o uso do termo Racismo Negro, uma forma de distorcer o conceito de racismo, mascarar o racismo brasileiro e culpar a população negra por se revoltar perante a estrutura racista e denunciar sua opressão. Além disso, percebe-se que, para a ditadura, esse movimento era considerado gerador de conflitos raciais, potencialmente subversivo e de maneira contraditória, sem autonomia organizacional.
Já a análise testemunhal revelou, em contraponto, a importância do movimento Black Rio para a organização da juventude negra em torno das pautas de justiça social, entre elas, o direito à cidade. Esses espaços também foram importantes para consolidação do movimento Black is Beautiful, que estava se fortalecendo no Brasil a partir da década de 1970, reafirmando o orgulho e a valorização da identidade negra.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)